Algumas árvores crescem ao contrário com as raízes para o alto.
Sua base mergulha no invisível, enquanto o caule rasga o solo da matéria.
É assim que eu cresço.
De cabeça para baixo, você pode dizer.
Mas não é.
É de dentro para fora.
De alma para o chão.
Foi preciso que eu deixasse cair as máscaras que aprendi a usar com ternura.
Máscaras de boa filha, boa aluna, boa esposa, boa mulher, boa mãe.
Todas elas: feitas da argila do medo.
Medo de não ser amada.
Medo de não pertencer.
Medo de não ser suficiente.
Medo da rejeição e do julgamento.
E então, um dia, a alma cansou.
E começou a gritar.
Gritar tão alto que o corpo adoeceu.
Gritar tão fundo que a vida me parou.
Foi assim que eu descobri que precisava morrer para sobreviver.
Morrer para tudo aquilo que não era verdade.
Para as histórias herdadas, os contratos invisíveis, as cordas emocionais
que me prendiam a um teatro onde o meu papel era sempre agradar.
A árvore caiu.
Mas as raízes não morreram.
Elas começaram a crescer para o alto.
A buscar água no céu.
A sugar luz e consciência.
Hoje sei:
não há caminho de volta para o “normal”.
Porque o normal era adoecimento.
Era silêncio engolido.
Era vazio encoberto por esforço.
Agora, habito o avesso.
E no avesso, encontrei a beleza daquilo que não precisa ser bonito para ser verdadeiro.
A verdade é o que resta quando a dor é atravessada e a alma respira alívio.
Não escrevo isso como um ensinamento.
Escrevo como quem encontra, finalmente, um espelho.
Escrevo para mim mesma.
E talvez, para você também.
Se você também sente que sua árvore está crescendo do avesso…
talvez não esteja tudo errado.
Talvez esteja tudo nascendo.
Crescer de cabeça para baixo é, às vezes, a única forma de florescer por inteiro.
Comente aqui, você também se sente assim ?
