Decreto contra o medo

 

coragem“Nego submeter-me ao medo,

 

que tira a alegria de minha liberdade,

que não me deixa arriscar nada,

que me torna pequeno e mesquinho,

que me amarra,

que não me deixa ser direto e franco,

que me persegue,

que ocupa negativamente a minha imaginação,

que sempre pinta visões sombrias.

No entanto, não quero levantar barricadas por medo do medo.

Eu quero viver, não quero encerrar-me.

Não quero ser amigável por medo de ser sincero.

Quero ser firme porque estou seguro.

E não porque encobri meu medo.

E quando me calo quero fazê-lo por amor.

E não por temer as conseqüências de minhas palavras.

Não quero acreditar em algo só por medo de acreditar.

Não quero filosofar por medo de que algo possa atingir-me de perto.

Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável.

Não quero impor aos outros, pelo medo de que possam impor a mim.

Por medo de errar não quero tornar-me inativo.

Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável, por medo de não me sentir seguro no novo…

Por convicção e amor, quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer.

Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor.

E quero muito crer no reino que existe em mim.”

Rudolf Steiner

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A parábola da corda

Uma mente apegada a suas crenças é como um homem agarrado a uma corda.
Ele se agarra à corda para preservar sua vida, pois sabe que, se soltá-la, cairá para a morte.
Seus pais, seus professores e muitos outros lhe disseram que assim é; e, quando olha em volta, ele vê que todos fazem o mesmo.
Nada o induziria a soltar a corda.
E o sábio se aproxima. Ele sabe que é inútil agarrar-se à corda, sabe que a segurança oferecida é ilusória e apenas nos mantém onde estamos. As
sim, procura um modo de dissipar as ilusões daquele homem e ajudá-lo a libertar-se.
Fala da segurança real, da alegria mais profunda, da verdadeira felicidade, da paz de espírito. Diz-lhe que ele pode provar tudo isso; basta soltar um dedo da corda.
“Um dedo”, pensa o homem. “Um dedo não é muito para arriscar por um gostinho do êxtase”. E concorda em fazer sua primeira iniciação.
E sente o gosto de maior alegria, felicidade e paz de espírito.
Mas não o suficiente para lhe trazer realização duradoura.
“Podes ter ainda maior alegria, felicidade e paz”, diz o sábio, “basta soltares um segundo dedo.”
“Isso”, pensa o homem, “já vai ser mais difícil. Será que eu consigo? Será que é seguro? Será que eu tenho coragem? “ Hesita, flexiona o dedo, sente como seria se soltasse a corda um pouco mais…e se arrisca.
Está aliviado por descobrir que não caiu para a morte; pelo contrário, descobre maior felicidade e paz interior.
Seria possível ter ainda mais?
“Acredita em mim”, diz o sábio. “Não deu certo até agora? Conheço os teus medos, sei o que tua mente está a te dizer – que isso é uma loucura, que vai contra tudo o que aprendeste – mas, por favor, confia em mim. Olha pra mim, não sou livre? Prometo que estarás a salvo e conhecerás ainda maior felicidade e contentamento.”
“Será que realmente quero tanto a felicidade e a paz interior”, pergunta-se o homem, “para arriscar tudo o que tanto amo? Em princípio, sim; mas como posso ter certeza de que estarei a salvo, de que não cairei?” Com uma pequena prece, ele começa a olhar para seus medos, a considerar a fonte de seus medos e a explorar aquilo que realmente quer.
Vagarosamente, sente que seus dedos perdem a tensão e relaxam. Ele sabe que pode fazê-lo. E sabe que precisa fazê-lo. É apenas uma questão de tempo até soltar a corda.
E, quando a solta, uma sensação de paz ainda maior flui através dele.
Ele pende agora por um único dedo. A razão lhe diz que já deveria ter caído há um ou dois dedos atrás, mas ele não caiu. “Há algo errado em agarrar-se?” , ele se pergunta. “Eu estive errado o tempo todo?”
“Esse último dedo depende apenas de ti mesmo”, diz o sábio. “Não posso te ajudar mais. Mas lembra, teus medos não têm razão de ser.”
Confiando em sua calma voz interior, ele aos poucos solta o último dedo.
E nada acontece.
Ele fica exatamente onde estava.
E então percebe por quê. Ele estava com os pés no chão o tempo todo.
E, ao olhar para o chão, sabendo que nunca mais precisará agarrar-se à corda, ele encontra a verdadeira paz de espírito.